quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Os Muros absurdos
Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre
significam mais do que têm consciência de dizer. A constância de
um movimento ou repulsão dentro da alma se reconhece em
hábitos de fazer ou de pensar e se persegue em conseqüências
que a própria alma ignora. Os grandes sentimentos trazem junto
com eles seu universo, esplêndido ou miserável. Com sua paixão,
aclaram um mundo exclusivo onde reencontram seu próprio clima.
Há um universo do ciúme, da ambição, do egoísmo ou da
generosidade. Um universo, isto é, uma metafísica e um estado de
espírito. O que é verdadeiro para sentimentos já especializados o
será mais ainda para emoções, no fundo, a um tempo tão
indeterminadas, tão confusas e tão "certas”, tão distantes e tão
"presentes" quanto aquelas que o belo nos desperta ou que o
absurdo nos suscita.
...Trata-se apenas "de uma atitude para conhecer"
e não de uma consolação. Pelos menos
em sua origem...
Como não sentir o parentesco profundo desses espíritos? Como
não ver que eles se reúnem em torno de um lugar privilegiado e
amargo em que a esperança não tem vez? Quero que tudo me seja
explicado, ou nada. E a razão é impotente diante do grito do
coração. O espírito incitado por essa exigência procura e só
encontra contradições ou despropósitos. O que não compreendo
não tem razão. O mundo está todo ocupado por esses irracionais.
Ele próprio, cuja significação não compreendo, não passa de um
imenso irracional. Poder dizer uma só vez: "isso é claro", e tudo
estaria salvo. Mas esses homens insistentemente proclamam que
não está nada claro, que tudo é caos, que o homem só conserva
sua percepção e conhecimento preciso dos muros que o rodeiam.
Todas essas experiências se entendem e se desentendem de novo.
O espírito que atinge os confins deve trazer um julgamento e
escolher suas conclusões. Aí se colocam o suicídio e a resposta.
Mas eu quero inverter a ordem da pesquisa e partir da aventura
inteligente para voltar aos gestos cotidianos. As experiências que
acabamos de evocar nasceram no deserto que não se deve deixar.
É preciso saber pelo menos até onde elas puderam chegar. Nesse
ponto de seu esforço, o homem se vê diante do irracional. Sente
dentro de si o desejo de felicidade e de razão. O absurdo nasce
desse confronto entre o apelo humano e o silêncio despropositado
do mundo. E isso que não se deve esquecer. É a isso que e preciso
se agarrar, pois toda a conseqüência de uma vida pode nascer daí.
O irracional, a nostalgia humana, o absurdo que surge do diálogo
entre eles: eis os três personagens do drama que deve
necessariamente, acabar com toda a lógica de que uma existência
é capaz.
Trecho retirado do livro - O mito de sísifo - Ensaio sobre o absurdo
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